CIGARRO E SILÊNCIO - I
   



BRASIL, Centro-Oeste, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Esportes, Arte e cultura

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Três meses. É para comemorar?

90 dias sem cigarro. Eu tinha pensado em colocar um daqueles gifs com champanhe estourando, e tal, para comemorar a importante marca de três meses sem fumar. Mas pensei um bocado e resolvi renovar o compromisso, mais nada. E tenho bons motivos para isso. Vejam só o trecho abaixo:

Desde o dia 13/04/2005, aproximadamente às 12:00, o tabagismo voltou a ser um incomodo na minha vida. Dias antes a vontade já vinha me assombrando, eu vinha me questionando se realmente queria me privar do prazer de fumar pelo resto da minha vida...

Este trecho foi extraído do impressionante relato do Bin, postado ontem em seu blog. Em solidariedade ele, vou ficar calado. Não teremos celebrações no Cigarro e Silêncio, pelo contrário. Quero que vocês cliquem no link Bin Oni Kaum e dêem uma força ao nosso amigo.

Leiam o relato e me respondam, com sinceridade: tenho motivos para comemorar ou para ficar atento?

 



Escrito por Artemus às 12h09
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Uma proposta de pacto

Depois do acontecido com meu amigo Bin (vide dois textos atrás), Fiquei meio incomodado com essa história de pressão. Afinal, somos tão fumantes quanto qualquer pessoa que entra no blog pela primeira vez, buscando apoio para se livrar do cigarro. A única diferença entre  nós e quem acabou de chegar são alguns dias sem cigarro. De minha parte, garanto a vocês: se fumar um cigarro hoje, não dou três dias para comprar uma carteira de Carlton. Então, fumando ou não, continuo tabagista, como bem define o Tabac, concordam?

Por isso, aqui vai minha proposta de pacto entre blogueiros. Que fique estabelecido:

  • Nenhum de nós está proibido de fumar. Mas se isso acontecer, toda força ao blogueiro para tentar novamente;
  • Não somos infalíveis nem podemos servir de modelo para ninguém. Mas se alguém quiser uma força, estamos aqui pra isso;
  • Nossos blogs não são "cases de sucesso". Somos apenas humanos. Como diria Adoniran Barbosa, a gente vai se defendendo, só isso;
  • Nossos blogs contam o esforço da subida, não contam a conquista do Everest. Tem muita pedra solta no caminho...
  • Podemos até fumar, mas abandonar o blog, jamais;
  • Apoio mútuo é tudo. Você quer nos ajudar? Crie seu blog, marque seu dia de parar e venha fazer parte da turma.


Em tempo: não sei se repararam, mas...

88 dias!!



Escrito por Artemus às 16h49
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Para Vânia e quem mais desejar

Recebi uma mensagem tão importante que vou destacar aqui, com a devida resposta:

"Oi, por favor me ajuda estou tentando parar ha muito tempo, sempre compro uma carteira e digo que sera a ultima, ta dificil, nao tenho folego nem disposicao, nao quero viver asssim, quero ter energia, dormir bem, nao cheirar mal e de quebra rejuvenescer, tenho 42 anos com cara de 55, por favor me ajude a dar o primeiro passo para a libertacao desse vicio maldito. aguardo ansiosa que me ajude me contando como foram as primeiras horas sem fumar para mim esta sendo muito dificil dar o primeiro passo, desde ja agradeco pois li seu blog e esta me ajudando muito a me entender. vania"


Resposta:

Existe um segredo?
Vânia, que tal encarar com mais boa vontade os primeiros dias? Eles não vão ser fáceis, mas se você entrar em pânico, aí é que vai ser difícil. Muita gente pára. Milhões de pessoas, muitas das quais, certamente, tão dependentes quanto eu ou você.

Sabe o que eu fiz? Decidi que, durante 7 dias, eu seria o centro do universo. Teria direito de ficar de mau-humor (e a família, o compromisso de aguentar), de comer o que eu quisesse, de ver os filmes que quisesse, etc. Passei a dormir cedo para encurtar os dias. Peguei uma série inteira de Friends na locadora. Comprei pizza, sorvete. Enfim, fiz uma lambança nos primeiros 7 dias. Depois, fiquei de mau-humor por mais 20. O fato é que a primeira semana será sua guerra particular. Não assuma nada, nenhum compromisso, nem de ser educada com ninguém. Tire os primeiros dias para você.

Ah, e faça um blog pra gente acompanhar e dar força! O primeiro passo para parar? Marque um dia! E depois me informe. Estou curioso. Abraços, Artemus



Escrito por Artemus às 14h48
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Um amigo de volta

Meu amigo Bin voltou a fumar. Depois de quatro meses e pouco. Eu já estava desconfiando de seu silêncio eloqüente dos últimos dias. E fiquei tão preocupado que preparei um texto a respeito. Prometo blogá-lo na sexta, pois ficou na máquina do escritório e amanhã é feriado. Amigo Bin, de certa forma, eu já sabia.

 

O mais estranho é que minha preocupação não era com o fato do Bin voltar a fumar. Ele é um rapaz cheio de energia, bom caráter, preocupado com o mundo, apaixonado, etc, etc. Enfim, Bin é um garoto de vinte e poucos anos. Logo, logo, ele retoma o projeto, mesmo porque não há coisa mais sem nexo do que atleta fumante.

 

O que me preocupou no silêncio do Bin, de fato, foi o “silêncio em si”. O blog parado, a ausência de mensagens... E fiquei pensando nas encruzilhadas éticas e morais em que este novo ambiente social que é a web nos coloca. Nas pressões e cobranças que sofremos por atitudes que ninguém havia tomado antes. No preço de ser desbravador.

 

Fiquei pensando, enfim, em como o Bin se sentiria ao informar no blog que voltara a fumar, ao assumir publicamente sua volta ao cigarro. Que preço pesado a pagar, e justamente por quem mostrou a coragem de poucos! E aí, meus amigos, me ocorreu que, como muitos, talvez o Bin não voltasse à nossa turma, não quisesse encarar uma barra pesada assim.

 

Mas ele voltou. Deixou uma mensagem aqui hoje, xingou, deve estar se remoendo de raiva pelos cigarros fumados no decorrer da semana. E nem imagina o quanto fiquei contente com aquele recado.

 

Por isso é que quero declarar: Bin, você não me deve nada, a não ser sua amizade. Voltou a fumar? Que chato. Vai ter que passar mais uma primeira semana de cão, e só. Quem deu sinal de vida hoje, no meu blog, não foi o Bin ex-fumante ou neo-fumante. Foi meu amigo Bin, que me ajudou a segurar a barra dos primeiros tempos sem o cigarro. E a quem quero, o quanto antes, começar a retribuir.

 

Marque o dia. Recomece. Conte comigo.



Escrito por Artemus às 23h13
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Já vi esse filme, eu morro no fim.

"Ah, eu fumo há tantos anos, não vou conseguir parar agora."

Será? Tenho pensado muito a respeito. E acabei concluindo que, em certos aspectos, é até mais fácil parar depois de uma certa idade, digamos, aí por volta dos quarenta. Claro que não é um grande consolo, pois um grande estrago já estará feito. Por outro lado, poderemos enfrentar a fera com mais coragem e, principalmente, serenidade.

Pense comigo: por que voltamos a fumar? Na maioria das vezes, porque parar foi mais fácil do que pensávamos. O raciocínio é o seguinte: "Se eu parei com tanta facilidade, é sinal de que o cigarro não me domina. Então posso até fumar um cigarro que não vou voltar ao vício."

Isso acontece algumas vezes em nossa trajetória de fumantes. E continuamos fumando. Até concluirmos que esse raciocínio traiçoeiro nos empurrou por dez, vinte, trinta anos de tabagismo. E que nossa proclamada independência só serviu, na verdade, para que voltássemos a fumar.

Um belo dia, depois dos trinta e cinco, quarenta anos, nós resolvemos tentar mais uma vez. Preparamos o espírito, respiramos fundo e marcamos a data. Sabemos que vai ser duro, que os primeiros dias serão terríveis, que sofreremos com a abstinência. Mas sabemos, também, que é possível parar e que em poucos dias já estaremos livres do mau cheiro e da "fissura" por um cigarro.

Então você pára. E atravessa o purgatório dos primeiros dias. E chega ao fim do primeiro mês, do segundo, do terceiro. E fica se perguntando por que, afinal de contas, fumou tanto tempo se em poucos dias você podia deixar o cigarro. Você se pergunta por que se intoxicou tanto se era tão fácil se livrar do vício.

Perceberam? O raciocínio é o mesmo. Só que, desta vez, você não vai fumar um cigarro só para provar que está livre do cigarro. Você já caiu nessa conversa algumas vezes. O que você faz, então? Monta uma trincheira e fica vigilante.

A minha trincheira, por exemplo, é o blog. Quem quiser que mostre sua independência. Eu não. Se eu brincar com um cigarro, compro uma carteira em uma semana. Como disse o Aldir Blanc, "já vi esse filme, eu morro no fim."

Resumo da ópera:

  • Não estou sugerindo que ninguém fique enrolando e só pare aos quarenta, pelo contrário. Se você puder parar aos vinte, maravilha. Mas é perfeitamente possível parar aos quarenta;
  • Você não é mais viciado aos quarenta do que era aos vinte. Não há razão para sofrer mais se parar mais tarde. Seu sangue se desintoxica da mesma forma que o da turma mais jovem;
  • Por outro lado, há razões para sofrer menos se for mais velho: você já não é tão ansioso. As coisas já não são tão urgentes, definitivas ou irremediáveis. Você sabe que, mais cedo ou mais tarde, a vontade passa;
  • Depois de uma certa idade, você é mais esperto e conhece melhor suas limitações. É humilde o bastante para saber que, se brincar com fogo, vai acabar queimado;
  • Mas a verdade é que, no final das contas, o melhor era nem ter começado.

Certo, amigo Idelber?



Escrito por Artemus às 13h49
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O aprendizado de mim mesmo

Dentro de uma semana, estarei completando três meses longe do cigarro. E devo dizer a vocês que, após a montanha russa emocional, parece que começo a entrar em um novo estágio. Ainda não sei bem o que vem por aí, mas estou gostando.

 

Por exemplo: minha irritabilidade diminuiu bastante. Sempre fui um cultivador de stress produtivo,  aquele que você administra durante três, quatro dias, e consegue o resultado de semanas. E que traz, como seqüela inevitável, o “pavio curto”, a sensação de que você vai explodir a qualquer momento. Agora, que durmo como gente normal, sinto-me mais complacente, mais compreensivo. Minha paciência tem-se mostrado renovada até para solicitar atendimento da Tim, acreditem se quiserem. Quem tem um celularzinho daquela turma sabe o quanto é enlouquecedora a seqüência de instruções do tele-atendimento: “Se você é cliente Tim e gostaria de entrar como franco atirador em nossa central de atendimento, disque 8. Se deseja apenas cair em depressão profunda, disque 9.”

 

O fato é me sinto mais... legal. Hoje, por exemplo, caminhei uns 7, 8 quilômetros com minha mulher e minha filha. Fomos conhecer uma cachoeira. Ora, perguntar-me-ão os ressabiados de plantão, o que isso tem a ver com o cigarro? Estará o distinto Artemus propenso a um estilo de vida mais zen?

 

Sem essa. Comecei a caminhar porque me senti respirando melhor e quis respirar melhor ainda. E porque preciso perder aqueles quatro quilinhos iniciais que vieram de bônus. Já cansei de mastigar o tempo todo. O resultado do passeio foi que passamos um dos melhores domingos dos últimos anos.

 

E a literatura, como é que ficou? Esta é a pergunta que não quer calar. Andei angustiadíssimo no último mês. As coisas não avançavam de jeito nenhum, pelas razões que vocês já conhecem. Aí, resolvi dar uma folga nos últimos quinze dias. Pensei comigo: “Vou atacar o problema por partes. Primeiro, me livro do cigarro. Depois, reaprendo a escrever”. Dito isso, entrei em férias literárias... E me surgiu naturalmente uma estoriazinha. Ainda é um embrião, mas está me agradando muito. E nem quero falar a respeito, pois vai que não dá certo...

 

Por que estou postando essas informações? Será que é porque descobri que depois do cigarro vem o nirvana, e resolvi arrebanhar seguidores para o paraíso que se anuncia em três meses? Sem essa, mais uma vez. Meu passaporte de fumante faz inveja a qualquer um. Tenho no peito uma cicatriz em forma de cruz, resultado do dreno colocado “a frio” quando tive o pneumotórax. Não vou cair no otimismo ingênuo de achar que, em três meses, apaguei 29 anos de vício.

 

Não, não estou escrevendo por nenhuma razão especial. Apenas achei que seria legal contar que,  ultimamente, me bateu vontade de caminhar e de rir um pouco mais.

 

Recados:

 

Giulia, fique firme, querida. E não se torture demais. Se precisar, bote a turma de fumantes de casa pra fumar na varanda (ou do outro lado da cidade)!

 

Daniela, obrigado pelo comentário. É muito bom saber que o blog está servindo para motivar algumas pessoas. Na verdade, só estou repassando o que outros, como o Tabagista Anônimo, fizeram por mim.

 

Idelber, o negócio é difícil mesmo. Largar esse trem é fogo, sô. E Zeno não é, definitivamente, uma boa referência para esses assuntos.

 

83 dias!



Escrito por Artemus às 00h27
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