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Sobre politicamente corretos
Tabac, com a elegância que lhe é peculiar, me deu um ligeiro puxão de orelhas no post anterior. Ele está certo. Certíssimo. O fumante passivo não pode sofrer as conseqüências do nosso vício. Sempre me preocupei com essa questão, pelo simples fato de que ela extrapola os limites do tabagismo. Estamos falando das fronteiras individuais. Enquanto fumei, o cigarro entre os dedos sempre foi um sinal de alerta para me afastar de quem não fuma. Consegui? Não sei. Fiz o que pude. Um viciado não resiste a certos locais e ocasiões...
Mas gostaria de falar mais um pouco sobre aqueles que Nelson Rodrigues agrupou na "unanimidade burra". Entre eles estão os que, livres do vício, empunham a espada da verdade absoluta para atirar os Cains fumantes nas profundezas do inferno. São os mesmos que propõem que se proíba o uso das palavras "slave" e "master" para classificar a hierarquia de computadores, pois são expressões discriminatórias. Para mim, essas pessoas são, no mínimo, idiotas completos. Os Torquemadinhas.
Mas são idiotas com uma verdade nas mãos. E quem tem uma verdade, julga. E quem julga, condena. Proíbe. O furor anti-tabagista, no mundo, tem para mim um indefectível cheiro de fumaça da inquisição. Livrai-nos deus do fogo purificador dos politicamente corretos.
Minha mulher continua fumando. Esconde-se de mim para acender um cigarro. Escova os dentes antes de se aproximar de mim. E me pergunta se está cheirando mal. Julia tem um dos pescoços mais cheirosos que meu nariz superdimensionado já fungou. Com cigarro, sem cigarro, ela é muito mais cheirosa do que eu. Por isso, por saber o quanto ela se incomoda, é que eu me incomodo e que tento deixá-la à vontade, se é que isso é possível.
Por essas e por outras é que vou adotar o lema de Rubem Braga, depois que parou de fumar: "Quem quiser que se fume!"
Em tempo, amigos: Giulia, do blog "Que seja infinito enquanto dure", marcou seu Dia D. Vamos visitá-la, dividir as aflições e expectativas, dar toda a força do mundo!
Escrito por Artemus às 19h20
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Meu futuro como fumante
76 dias. Daqui a pouco estarei completando três meses sem fumar. É um período respeitável para qualquer fumante, tenho plena consciência disso. Sei que não se chega perto dos 90 dias assim, sem mais nem menos. Então quero declarar que, apesar das lamentações, estou satisfeito. Vamos em frente.
Desde o começo, prometi a mim mesmo não me transformar num anti-tabagista chato, daqueles que ficam pegando no pé de quem fuma e tendo chiliques com cheiro de cigarro. Sem essa. Não vou trocar o vício de fumar pelo vício de não fumar. Além do mais, tenho tendência a suspeitar de toda e qualquer causa que se transforma em bandeira apaixonada.
O fato é que cigarro é bom. As conseqüências é que são de matar (com o perdão do trocadilho). Tem muita gente por aí que, como eu, adora aquela sensação que Mallarmé definiu como “colocar um pouco de fumaça entre mim e o mundo”. Isso é do cacete. O problema é que o preço a pagar, no meu caso, seria o enfisema em três, quatro anos. Não tem jeito, cigarro mata. Por isso é que estou parando, e não porque me deixe os dentes amarelados ou agrida as narinas histéricas que farejam o cheiro de um Carlton a vinte metros de distância. Aliás, acho que uma das virtudes do cigarro foi me afastar desse tipo de alma sensível, pura e, por isso mesmo, patrulhadora. Os Torquemadinhas.
Bão. Posto que sou um apaixonado pelo cigarro mas tenho consciência dos malefícios do fumo, estou pensando em um projeto de futuro que representará uma terceira via. Vejam só: fumei durante 29 anos. Se eu parar por outros 29 (para ser justo e equilibrado), chegarei aos 76 anos como um não fumante, praticamente recuperado... E com o pulmão novo em folha! O que eu faço, então? Volto a fumar por outros 29 anos e chego aos 105 na situação em que estou hoje. Como não vai compensar abrir nova contagem, continuo fumando e tenho um enfisema aos 108 anos de idade.
Simples, não acham? Pronto, acordo fechado comigo mesmo. Nesta etapa atual, só me faltam 28 anos, 9 meses e 14 dias sem cigarro. Depois, posso me esbaldar, fumar à vontade por mais um bom tempo!
Êpa... E se, quando eu chegar lá, os Torquemadinhas tiverem acabado com os cigarros?
Escrito por Artemus às 21h55
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O cigarro voltou...
Em sonhos. Depois de 71 dias sem nicotina, esta noite eu sonhei que estava fumando. Era uma festa ou algo parecido, a fumaça dos cigarros não deixava ver com clareza. E eu lá, no meio de uma discussão qualquer, mais fumante do que qualquer um dos presentes.
Isso prova que meu organismo está completamente desintoxicado. E que meu subconsciente está apelando para a memória do vício, última trincheira que ele defende antes de me deixar em paz. Agora, só volto se for mesmo muito tolo. E fui, nas tentativas anteriores.
O sonho sempre ocorre comigo. É minha prova de desintoxicação. Fico esperando o momento em que ele vai acontecer, porque é uma experiência terrível. A culpa, o desânimo, a sensação de fracasso...
Mas sabem o que foi mais incrível? Durante o sonho inteiro (no qual eu estava me culpando e fumando ao mesmo tempo, acho que pra tirar o atraso), eu pensava: "E agora, o que eu vou dizer no blog? Vai ser uma decepção!".
Entenderam? Não me preocupei com família ou amigos presentes. Me preocupei com os amigos do blog!!! Que coisa incrível é isso que nosso amigo Tabac chama de sinergia digital!
E para que não reste nenhuma dúvida...
72 dias!!!
Escrito por Artemus às 13h18
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