CIGARRO E SILÊNCIO - I
   



BRASIL, Centro-Oeste, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Esportes, Arte e cultura

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Brigadão pelos comentários. Poucos. Curtos. E valiosíssimos.

Sabe como é, blog que tem visitantes desse nível fica meio metido.

 



Escrito por Artemus às 23h00
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Granola e inércia

Este é o título auto-irônico para hoje. Ao invés de "Cigarro e Silêncio", granola e inércia. Estou com a mandíbula dolorida de tanto mastigar os grãozinhos sem gosto. E em inércia total, esperando que caia um raio de criatividade do céu para continuar o livro.

Mas o fato é: e se eu estivesse fumando, estaria criando? Com absoluta certeza? Então por que não publiquei nada nos últimos 2 anos? Vai ver que é porque não fiz literatura. Mas como não fiz literatura se estive fumando todo esse tempo?

Resumo da ópera: cigarro não garante livro, da mesma forma que a ausência dele não justifica indigência mental. Tenho mais é que enfrentar a fera e disciplinar o raciocínio. Certamente o estado dispersivo não demora muito.

Alguém quer granola?



Escrito por Artemus às 22h53
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Que dia é hoje?

Engraçado. Parei de fumar há apenas 47 dias e já estou esquecendo de olhar o calendário. Como diz o amigo Bin, a dependência química já não fala tão alto. Mas então, se não faz nem dois meses, é sinal de que é muito fácil, não é? Já não sinto mais vontade de fumar, só aquela melancolia de ex-fumante, a memória afetiva do cigarro, dos momentos de isolamento, etc, etc etc...

Então. É fácil, mesmo. Tão fácil que ontem eu estava pensando: "Caramba, o novo livro está tão difícil... Todos os outros foram escritos com o cigarro do lado, eterno companheiro. Então por que não deixar para depois esse negócio de parar? Por que não entrar de corpo, alma e pulmões na estória, atacar esse livro em vez de ficar disfarçando o medo de que a ausência do cigarro me impeça de escrever? Afinal, se parei agora, posso parar mais tarde, depois do livro pronto."

O parágrafo acima foi exatamente o que eu me disse nas últimas três tentativas. Como todo fumante, tenho um subconsciente muito convincente quando o assunto é cigarro. Só que ele tem uma memória pontual. Sempre esquece, por exemplo, do que aconteceu das outras vezes, quando eu entrei na conversa do "depois eu paro". O subconsciente só vai até onde a memória do prazer alcança. E a memória do prazer não alcança a fantástica experiência que tive há alguns meses: deitar na cama, rolar de um lado para o outro e não conseguir dormir por alguma razão. Insônia? Não, eu estava cansadíssimo, tinha trabalhado (e fumado) a noite toda. Era como se eu estivesse dormindo pela primeira vez naquela cama... ou com aquele corpo! Meu corpo não estava conseguindo descansar. Até que eu consegui encontrar uma posição razoável, meio de lado. Daquele jeito eu conseguia... respirar melhor. Foi minha primeira experiência com falta de ar. E fiquei imaginando o que deve ser uma morte lenta por enfisema pulmonar. Já pensou, morrer implorando para respirar?

Mas o meu subconsciente não se lembra disso. A memória do cigarro é presente, imediata, como a memória de qualquer prazer. O longo prazo não existe. O desejo é agora e a satisfação está ali, no bar da esquina.

 É fácil, mesmo. É muito fácil voltar a fumar.

 



Escrito por Artemus às 10h43
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De passagem, ainda limpo!

Ando mais ocupado que de costume, sem tempo pra vir aqui e passar um pouco de minha via-crucis com o cigarro para quem está na luta contra o dito cujo. Mas é sempre bom reafirmar compromissos e conquistas. Então, lá vai: 45 dias sem cigarro. E algumas conclusões surpreendentes:

Depois de 45 dias...

  • Pão tem gosto de pão, sorvete tem gosto de sorvete. E eu que já nem lembrava o que era papila gustativa...
  • Muita facilidade para dormir. Até demais, preciso dar um jeito de ficar mais tempo acordado...
  • A fase mau humorada vai ficando pra trás. Mas a preocupação com a produtividade madrugada afora vai crescendo. Como diz minha filha, caraca,tenho que encarar esse problema de uma vez...

No mais, nada de mais. Continuem acompanhando. 



Escrito por Artemus às 15h19
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Mantendo a boca ocupada

Comigo, ajudou. Sabe aqueles cristais de gengibre que se encontra em qualquer farmácia? Custam coisa de 3 Reais o frasco e duram uns 3 dias. O diabo é que arde um bocado, nem todo mundo suporta. Mulheres principalmente. Mas um pedacinho faz esquecer na hora a vontade de fumar, com a vantagem de você não ficar se entupindo de bala.

Só um detalhe: cuidado com o exagero nos cristais, por causa da alta concentração de sal (problemas renais, etc.).

Que mais eu usei no purgatório (os primeiros sete dias)? Uns calmantes naturais baratinhos à base de passiflora, pra minorar o mau-humor. Ajudou, também.

O mais importante é que evitei programas perigosos no período crítico. Nada de churrascos, pescarias (meu hobby), etc. Lá pelo quinto dia, fui amarrado a uma festa no trabalho de minha mulher. Terrível. Mas foi importante, pois confirmou minhas suspeitas sobre a perigosíssima combinação de música, descontração e altas horas.

Os primeiros dias sem o cigarro não devem ser usados para mais nada, a não ser cuidar de você mesmo. Adote uma rotina de protozoário: pensar pouco, trabalhar muito e dormir mais ainda.

Não tem jeito. Até passar a fase da compulsão pesada, a pessoa mais importante do universo tem que ser você.



Escrito por Artemus às 14h07
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42 dias!

Inauguro este blog hoje. E já começo com uma historinha. Há muitos anos, tive um pneumotórax. Pra quem não conhece, pneumotórax é uma perfuração espontânea do pulmão. Fiquei 24 horas com o pulmão esquerdo "colabado", para usar o termo médico, sem desconfiar de nada, só estranhando o cansaço. Para encurtar a conversa, fui parar na UTI, submetido à colocação de um dreno sem anestesia. Um dreno é um buraco no peito, por onde o ar sairá para permitir que o pulmão volte a se dilatar. Por que sem anestesia? Porque, fumando 3 carteiras por dia e estando há 24 horas sem um pulmão, não tinha oxigênio bastante no sangue para suportar uma anestesia geral. Foi uma experiência inesquecível.

O pneumotórax foi culpa do cigarro? Não necessariamente. Mas, como me disse o médico que me perfurou o peito "a seco", é preciso ser muito corajoso ou estúpido para continuar fumando depois de um pneumotórax. 20 dias depois de sair da UTI, acendi meu primeiro Carlton. E definitivamente não me pareceu um ato de coragem, tirem suas conclusões.

A historinha foi para avisar que não esperem desabafos, xingamentos, manifestos anti-tabagistas neste blog. Sou macaco velho o bastante para saber que raiva pode muito pouco contra o cigarro. Estou mais a fim é de exercitar minha humildade. Sem declarações bombásticas ou definitivas. Para mim, é simples: sou fumante ativo e devo ter uma morte especialmente dolorosa caso continue fumando. E isso não deve demorar muito. Por isso é que decidi tentar. De novo. Sem alarde.

Até para começar o blog eu resolvi pegar leve. Na verdade, estou completando hoje 42 dias sem fumar. Parei no dia 24 de janeiro. Por que esse dia? Nenhum motivo especial. Já tentei parar em datas solenes e o resultado foi a recaída. Então decidi tentar em um dia besta do calendário, sem fogos de artifícios ou contagem regressiva. Assim, no seco, bem ao meu estilo.

E qual é o meu estilo, depois de quatro tentativas? É o seguinte: tenho que parar de uma vez e me preparar para sete dias no inferno, mergulhado em compulsão e angústia. Depois de uma semana sem fumar a vontade praticamente acaba, mas fico de mau-humor por mais uns 20 dias. Ao final de um mês sem ingestão de nicotina, tudo fica normal. Tão normal que em 60, 90 dias, lá estou eu lépido e fagueiro, brincando com um cigarro entre os dedos.

Por essas e por outras é que esperei esse tempo de abstinência para colocar o blog no ar. Para dar uma credibilidade mínima, entendem? Não dava para começar e desistir em uma semana. Como iam ficar aqueles que, como eu, buscaram nos blogs, internet afora, aquele primeiro apoio para parar de fumar? Caramba, senti o peso da responsabilidade. E resolvi adquirir uma pequena reserva moral. Taí, 42 dias. Yessss. Minha meta inicial? Dia 26 de agosto, quando quebro meu recorde pessoal de sete meses.

E por que "Cigarro e Silêncio" como título do blog? Boa pergunta. Sou escritor e roteirista. Atravesso madrugadas escrevendo. Meus grandes companheiros de trabalho nos últimos anos foram o cigarro e o silêncio. Ah, esqueci de um, o café. Esse trio me acompanhou durante 30 anos, nas "longas jornadas noite adentro".

E como vou ficar daqui pra frente? Esta é a pergunta que não quer calar. Na verdade, parei mas não parei. Está certo, deixei o cigarro de lado. Mas não voltei para as minhas madrugadas. Estou com medo de não conseguir sentar lá, no meu canto da casa, e arrancar o próximo livro. Estou enrolando, fazendo hora. O blog, de certa forma, é uma maneira de voltar para o texto pelas beiradas, para ver se pego meu subconsciente distraído. Aí, quando me der conta, já estou lá pelo capítulo 20 do próximo livro. Tomara.

É isso, por enquanto. Preciso de ajuda para mexer com este blog. Quero colocar um contador de dias sem fumar, como faço isso? Alguém pode me ajudar?

42 dias. Não é muito. Para quem fumou durante 28 anos, não é nada. Mas é o que eu tenho para começar. Meu patrimônio.

Vamos seguindo e conferindo. Inté.

Artemus



Escrito por Artemus às 15h17
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